quarta-feira, 6 de março de 2013

A primeira noite sem Hugo Chavez nas ruas de Caracas



A jornalista brigadista Carina Santos deu um relato lindíssimo e emocionante do que viu nas ruas da Caracas na primeira noite sem o presidente  da Venezuela Hugo Chavez.

"Volto das ruas desta Caracas com uma dor que não cabe em palavras. Dor por imaginar a falta já sentida do sorriso, força, coragem e utopia de um dos mais humanos seres que nossa História conheceu. Mas preciso dizer que volto com uma outra dor: a certeza que nosso Brasil não pôde conhecer a profundidade e a beleza do grande Chávez.


Sei que neste momento, no maior país da América Latina, poucxs sentem no coração essa perda, poucxs podem compreender o que significa sua morte. Minha dor é saber que agora não estamos nas ruas, gritando em português uma tristeza de sangue latino. Dor, por daqui perceber, a posição de um governo que fortalece a "integração latino-americana" com sua política econômica, mas não abre nem um vasculhante para que o povo brasileiro se sinta parte deste moinho latino. Faz vista grossa à cobertura deprimente dos meios privados e não coloca seu sistema público de comunicação à serviço de uma verdadeira integração dos povos da América Latina (integração que não se faz só exibindo meia dúzia de documentários em espanhol). Dor por ver essa cobertura jornalística fria e equivocada, que nestes últimos 15 anos nos pintou de ditador um dos maiores transgressores do século.

Se pudesse, compartilharia aqui além de fotos e palavras. Compartilharia essa dor com milhões de brasileirxs que estão fora deste facebook e que agora só sabem um pouco mais de Chávez por sua morte, e não por sua vida. Aliás, compartilharia essa dor também com vocês do facebook, já que daqui a duas semanas Chávez certamente vai desaparecer de muitas destas páginas. Sei como é. As Redes Sociais precisam acompanhar o dinamismo deste mundo.

Se não fosse a militância, se não fosse esse sonho que lateja em meu coração, certamente não teria cruzado tantos quilômetros para conhecer de perto um povo de tamanha beleza, um país de tamanha força, uma Revolução de tamanha audácia e um Chávez de tamanha humanidade. Chávez que nos fez pular carnaval no último 18 de fevereiro, quando voltou de Cuba e nos lançou um sopro de esperança. Que felicidade imaginar que ainda poderíamos viver junto ao homem que "desafiou Roma" e ajudou a construir um sol capaz de iluminar também xs oprimidxs da nossa América, do nosso mundo. 

Homem que desafiou o discurso simplista do fim da História, nos fazendo sentir que a verdadeira História ainda nasce das mãos há séculos exploradas pela brusca sociedade de classes. Homem que não teve medo de demostrar inclusive seus limites quanto representação política, me fazendo enxergar a beleza das contradições, em um mundo de maniqueísmos vazios. Ser humano que me fez acreditar ainda mais no Amor e na poesia como fuzis e plumas de uma Revolução. Como eu queria compartilhar essa dor.

Como queria ter a certeza que já não caímos nas armadilhas desta mídia aberração, que já não somos contaminados por essa epidemia chamada pós-modernismo. Queria compartilhar um choro sincero de quem ainda sonha sim com outros passos, outras luzes, outros caminhos de um mundo novo. De quem sente que daquele muro derrubado brotam flores que serão o jardim de um mundo sem muros. De quem não teme gritar ou assoprar Revolução, de quem não teme ser humanx. 

Mas também comparto uma alegria visceral, por nesta noite ter visto e sentido Chávez em cada rosto triste, em cada abraço solidário, em cada canção improvisada com versos de uma saudade.

Compartilho, por fim, um desses versos, do grande cantor venezuelano Ali Primera (que também só pude conhecer aqui. Ainda vou ser capaz de entender o problema da crítica musical brasileira com as manifestações que não nascem do "centro"). Verso, inclusive, sempre recitado por nosso comandante: 

"Los que mueren por la vida no pueden llamarse muertos."

Chávez somos todxs nosostrxs!

Caracas, 6 de março de 2013.

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